quarta-feira, 18 de março de 2015

Dribla não que o bagulho é sério: conhecendo o estádio do Céres



Sempre tive a curiosidade de conhecer o estádio do Ceres clube do bairro Bangu.

O problema é que o estádio há tempos não recebe jogos oficiais de campeonatos profissionais, isso porque dificilmente o clube apresenta os laudos necessários.

Consegui visitar o estádio - e com público - porque lá foram realizados os jogos da Taça das Favelas, até a fase das Semifinais. Como se trata de um torneio amador, as exigências de laudo não são as mesmas e por isso, os portões estavam abertos à participação do público.


As várias partidas das 4as de final ocuparam a manhã e a tarde de sábado, dia 07 março, sendo disputadas em sequência, incluindo as equipes femininas.

A Caravana passou sábado, quase que inteiro, em Bangu incluindo um passeio no Shopping por motivos futebolísticos, a ida ao estádio do Ceres e uma esticada em Moça Bonita.

Que dia hein!

Essa postagem é sobre minha ida ao Ceres.



O Ceres e a Taça das Favelas

Ceres é o nome da Deusa da Agricultura, na mitologia romana, assim como é o nome de um planeta anão, descoberto no final do século XIX.

E Ceres é o nome do Ceres Futebol Clube que é antigo, pois sua fundação data de 1933, ano importante para o futebol brasileiro, já que foi nele que esse esporte tornou-se profissional.

Embora tenha nascido nesse ano, Ironicamente o Ceres passou a participar de campeonatos profissionais tardiamente, na década de 1980, quando disputou a Terceira Divisão do Carioca.



Escudo do Ceres



O Ceres tem uma das mascotes mais interessantes e fofos do futebol nacional. A Macaca Chita que faz alusão a grande amiga de Tarzan.

Macaca Chita, a mascote do Ceres. Fonte: http://www.escudosdeclubes.com.br/mascotes_brasil_rj.htm

Outra versão da Mascote Macaca Chita. Fonte: http://www.timesdelbrasil.com.br/rj/ceres-rj.htm

Mas o nome da mascote também se deve ao fato de o Ceres ter como endereço a Rua da Chita, em Bangu.






Ceres x Bangu é um duelo entre vizinhos, o que costuma ser um fator importante para rivalidades. Mas infelizmente somente por três vezes na história, os vizinhos se enfrentaram, sendo que a última delas foi em jogo da Taça Rio, em 2014, no estádio João Francisco.

O jogo foi realizado com os portões fechados ao público.

Busquei e busquei informações de quando teria sido realizada a última partida profissional com portões abertos no estádio do Ceres. Não encontrei informação.

Para o Campeonato Carioca o estádio está vetado para uso e o Ceres vai mandar seus jogos em estádios diversos, sobretudo no Marrentão, em Xerém. 

Creio que como a Taça das Favelas não é um campeonato vinculado a FERJ, que exige a apresentação de uma série de laudos, a participação do público foi possível com direito à entrada gratuita.





A Taça das Favelas é um torneio criado pela Cufa (Central Única das Favelas) visando a integração de comunidades - via esporte - assim como a possibilidade de  revelar jogadores que possam seguir carreira nos gramados. (Ver: http://www.tacadasfavelas.com.br/)


Eduardo da Silva - que hoje joga no Clube de Regatas Flamengo - também chegou a participar da Taça das Favelas pelo Villa Kennedy, em 1999.

A Taça da Favelas foi um espaço de visibilidade importante para Eduardo que ao se destacar nessa competição foi selecionado para jogar nas divisões de base do Dínamo Zagreb, da Croácia.

É uma pena que o jogador tenho ido tão cedo para fora do Brasil, mas é compreensível.
Fonte: http://extra.globo.com/esporte/descobridor-de-talentos-tecnico-de-eduardo-da-silva-na-adolescencia-continua-atras-de-novas-promessas-na-taca-das-favelas-15206662.html


Também coincidentemente, o Ceres foi o clube onde Eduardo jogou na Categoria Infantil, em 1990.


Fonte: http://ceresfc.blogspot.com.br/2008/11/resgate-da-histria-foto-de-eduardo-da.html






Alguns clubes brasileiros costumam ficar atentos aos jogadores dessa competição, buscando talentos para serem aproveitados.

Ora, se uma das intenções da competição é revelar jogadores, seria importante que ela fosse realizada em lugares onde o gramado não oferecesse tantos riscos de lesão.

Uma queda, uma jogada mais ríspida, enfim são muitos os perigos oferecidos por um gramado quase sem grama, desnivelado, cheio de buracos etc.





Como já deixei claro, eu sou totalmente a favor da cultura futebolística plural que contemple diversos times e estádios das cidades.

Mas isso significa, antes de tudo, que defendo uma melhor organização no futebol brasileiro que financeiramente viabilize que clubes como Ceres, Olaria, Bonsucesso entre outros, tenham condições de manter suas atividade vivas, mas não de qualquer modo.

Os estádios precisam estar abertos à participação do público e também a uma prática de futebol que não ponha profissionais sob risco de graves lesões. É necessário oferecer condições para se desenvolver um jogo, em que a bola role sem maiores problemas.

Portanto, o que falo não parte do pressuposto de que estádios como o do Ceres devam ser esquecidos.

Ao contrário. Penso que se deve viabilizar sua manutenção, respeitando sua história, conferindo-lhe condições mínimas de se manterem vivos.

Adorei conhecer o estádio, mas gostaria de vê-lo em melhores condições.


"Dribla não que o bagulho é sério": o estádio e a torcida

O estádio do Ceres chama-se Estádio João Francisco dos Santos e não sei dizer o porquê desse nome. Procurei informações, mas não encontrei nada que fosse confiável.

Sua fundação ao que parece foi em 1963, portanto trata-se de um estádio com 52 anos d idade.

O estádio comporta cerca de 3000 mil pessoas e possui apenas uma arquibancada, bastante apertada, basicamente formada por um corredor estreito.






A torcida presente era formada por pessoas que tinham uma clara relação de familiaridade entre si e com os jogadores, por isso as pessoas se cumprimentavam como se fossem vizinhos ou mesmo amigos de longa data.

Havia muitos parentes de jogadores, assim amigos também.

Portanto, tratava-se com um tipo de comprometimento que se fundava principalmente na relação de proximidade com os jogadores.

Esse tipo de engajamento torcedor é diferente do que ocorre em competições com alto grau de profissionalismo e espetacularização. A maioria dos torcedores de times como Corinthians, Vasco, Flamengo, Bayern de Munique etc, jamais falou pessoalmente com os jogadores. E provavelmente não falará.

Essa forma de torcer se dá através da relação com o clube ou o time de coração e não é mediada por parentesco ou amizade. 

Na Taça das Favelas a questão era outra, o que não exclui expectativas, nervosismo e vontade de ver o time vitorioso. Às vezes o grau de proximidade com os jogadores podem fazer com que.essa vontade se agigante

Olhem esses pais:



A seriedade com que o jogo foi visto por muitos torcedores que estavam nas arquibancadas do Ceres pode ser resumida na frase "Dribla não que o bagulho é sério", que um rapaz gritou para os jogadores.


Afinal quem perdesse estaria eliminado da competição.

Não faltou tensão aos times que se enfrentavam: Cabral de Nilópolis X Nova Sepetiba 





 Nova Sepetiba perdeu....




MACHISMO, SEXISMO ... 


Imediatamente após a saída dos jogadores do gramado, entrou em campo as equipes femininas Chaperó X Rocinha





Para esse jogo, houve uma diminuição do público na arquibancada. Muitos, assim que perceberam que se tratava de times femininos, falaram que iam embora porque não se interessavam por essa modalidade.






 Mas outros permaneceram. 




Durante o jogo ouvi muitos, mas muitos comentários sexistas, machistas, preconceituosos, enfim... tudo de desagradável que se possa imaginar. Esse tipo de tratamento não é exclusividade dessa competição, afinal o que se que houve nas arquibancadas pelo Brasil, quando há uma mulher no trio de arbitragem, também é bastante desagradável....


Tenho a impressão de que no caso do público presente no Ceres, esses comentários foram mais carregados de preconceito, porque o público era formado por pessoas que se conheciam e que por isso se sentiram mais à vontade  para falar muitas grosserias entre si. Essa familiaridade deu espaço para uma maior permissividade nas conversas, nos gritos e xingamentos direcionados às meninas.

Como já mencionou o antropólogo Roberto DaMatta, o futebol dramatiza a sociedade que o circunda e o que pude sentir ali nas arquibancadas do Ceres foi uma manifestação que não se reduz aquele espaço, mas pertence a uma sociedade brasileira - incluindo muitas mulheres - que de modo geral ainda é muito machista.

Essas meninas são vitoriosas só por estarem ali, porque o futebol feminino de um modo geral é uma modalidade que podemos chamar de sobrevivente no cenário esportivo nacional.

Na bola quem venceu foi o time da Rocinha:





Como disse, o público foi aumentando à medida que se aproximava o fim do jogo das meninas. E o estádio estava lotado para o jogo entre Vila Aliança x Jorge Turco



A torcida do Jorge Turco era grande e bem animada:




Esse jogo eu não assisti. Fui embora porque precisava ir para Moça Bonita. 

Sei que o Jorge Turco perdeu por 2 x 0 para o Vila Aliança.

No domingo dia 08 de março foram disputas também no estádio do Ceres, as semifinais.

Na final, a Taça das Favelas foi decidida disputas por Vila Aliança x Padre Miguel (masculino) e Barata X Complexo do Alemão (Feminino). Os jogos foram realizados no Estádio do Madureira.

No masculino a competição foi vencida pelo Padre Miguel e no feminino pela Comunidade Barata.


Nenhum comentário:

Postar um comentário